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Automatizar processo ruim só acelera o erro
Hammer escreveu na Harvard Business Review, em 1990, que automatizar um processo ruim é pavimentar o atalho errado. Trinta e seis anos depois, a tentação é a mesma — só que agora ela se chama agente.
Distribuidora de autopeças, 210 pessoas. O cadastro de um novo fornecedor levava 11 dias e passava por seis mãos: compras preenchia um formulário, fiscal conferia documento, jurídico olhava contrato, financeiro cadastrava no ERP, compras conferia o cadastro, e a diretoria aprovava. Contrataram uma automação para o formulário.
Depois da automação, o cadastro passou a levar 9 dias. O formulário, que antes demorava um dia para circular, agora chegava em segundos — e ficava esperando na mesma fila de sempre. A empresa tinha automatizado a única parte do processo que não era o problema.
01A ideia: não automatize, elimine #
Michael Hammer publicou na Harvard Business Review de julho de 1990 o artigo que deu nome à reengenharia de processos: Reengineering Work: Don't Automate, Obliterate. O argumento era direto e desconfortável para a indústria de tecnologia da época: as empresas estavam usando computador para fazer mais rápido processos que não deveriam existir naquele formato.
Hammer observava que a maior parte dos fluxos administrativos tinha sido desenhada décadas antes, sob restrições que já não existiam — informação em papel, ausência de comunicação instantânea, necessidade de conferência manual porque não havia como verificar de outra forma. Automatizar esse desenho preserva as regras que só faziam sentido dentro das restrições antigas.
Usar tecnologia para acelerar um processo mal desenhado é investir em fazer a coisa errada com mais eficiência.
É justo registrar o outro lado. A onda de reengenharia dos anos 1990 produziu estrago real: virou sinônimo de corte de pessoal e, como Thomas Davenport escreveu em 1995 fazendo autocrítica ao movimento que ajudou a criar, ignorou as pessoas que executavam os processos. A parte que envelheceu bem de Hammer é o diagnóstico, não a brutalidade da execução.
02Por que isso ficou mais urgente com IA #
Em 1990, automatizar era caro e lento, o que servia de filtro natural: só valia a pena para processos importantes, e alguém pensava um pouco antes. Hoje, montar uma automação leva uma tarde, e um agente de IA pode assumir uma etapa inteira em uma semana. O filtro sumiu.
Isso muda a natureza do risco. Uma automação sobre processo ruim não apenas acelera o erro: ela o congela. A regra estranha que existia porque um diretor pediu em 2019 passa a estar codificada, com alguém dependendo dela, e mexer nisso vira projeto de TI.
Vale dizer isso com todas as letras, mesmo sendo o nosso negócio: quem vende automação e agentes tem incentivo para pular a etapa de repensar o processo. É um péssimo negócio para os dois lados. Um agente colocado sobre um fluxo confuso produz resultado inconsistente, perde a confiança do time em três semanas e queima o assunto dentro da empresa por dois anos.
03A conta da automação apressada #
Escala da distribuidora de 210 pessoas, com 25 cadastros de fornecedor por mês. Premissas conservadoras e explícitas:
11 → 9
dias de prazo com a automação do formulário
11 → 3
dias ao eliminar duas conferências e paralelizar duas etapas
6 → 3
mãos por cadastro, sem demitir ninguém
R$ 118 mil
por ano em tempo liberado nas áreas envolvidas
Quer ver como isso fica dentro de uma operação de verdade? Conheça a plataforma.
A conta: cada cadastro consumia cerca de 5,5 horas de trabalho humano somando as seis mãos. Eliminando a dupla conferência e fazendo jurídico e fiscal olharem em paralelo, cai para cerca de 2,2 horas. São 3,3 horas × 25 cadastros × 12 meses = 990 horas anuais; a R$ 90 a hora, cerca de R$ 89 mil, mais o efeito de prazo sobre negociação com fornecedor. E só depois disso a automação entra — sobre um fluxo de três etapas, onde ela vale muito mais.
04Onde isso trava na prática #
- Ninguém sabe por que a etapa existe. A resposta mais comum é 'sempre foi assim'. Sem o motivo, ninguém se sente autorizado a remover — e automatizar parece o caminho seguro.
- A automação é comprada por área. Cada departamento automatiza o próprio pedaço, e o fluxo entre áreas, onde está a maior parte da espera, continua intacto.
- Repensar processo dá trabalho político. Eliminar uma conferência significa alguém abrir mão de um controle. Automatizar não ofende ninguém, e é por isso que é escolhido.
- Falta o registro para decidir. Sem saber quanto tempo cada etapa realmente consome, a escolha do que automatizar é feita por intuição — normalmente a etapa mais visível, não a mais cara.
05O que gestão com dado responde #
Decidir o que eliminar exige saber onde o tempo vai. Quando cada etapa registra quando entrou e quando saiu, a conversa deixa de ser sobre opinião de área e passa a ser sobre a fila que está ali. É a mesma leitura que sustenta o mapa dos sete desperdícios no escritório e que evita o erro clássico de otimizar longe do gargalo real.
Nossa posição sobre a ordem das coisas é a mesma há tempo, e ela não muda porque vendemos automação: primeiro tornar o fluxo visível, depois eliminar o que não deveria existir, depois padronizar, e só então automatizar ou colocar um agente. Os módulos de processos, automações e agentes da plataforma foram desenhados nessa sequência — inclusive porque um agente sem processo definido não tem como saber o que é certo. Vale ver como isso se aplica por área e, se o seu caso for específico, falar com a gente antes de automatizar costuma economizar um projeto inteiro.
Uma advertência final, no espírito da autocrítica que o próprio movimento fez nos anos 1990: repensar processo mexe com o trabalho de pessoas reais, que quase sempre sabem melhor que qualquer diagrama onde o fluxo quebra. Fazer isso sem elas é como a reengenharia ficou malfalada.
A pergunta não é o que dá para automatizar. É o que deveria deixar de existir antes que alguém automatize.
Fontes e leituras
Antes de automatizar, olhe o processo inteiro.
A gente prefere começar pelo desenho do fluxo: o que deve deixar de existir, o que vira regra e só então o que vira automação.