Profissional experiente explicando uma tarefa a um colega ao lado da mesa

Foto: Unsplash

O que a IA não vai aprender com você

Sabemos mais do que conseguimos dizer. É exatamente a parte que não conseguimos dizer que decide se o agente vai acertar.

Marcelo Aguiar9 min de leitura

Transportadora, 540 pessoas, frota própria e agregados. A programação de cargas é feita por três pessoas, e uma delas, com 19 anos de casa, resolve os casos difíceis. Perguntada sobre como decide, ela responde coisas verdadeiras e inúteis: 'depende do cliente', 'esse aí não aceita entrega depois das 15h', 'quando é aquela rota eu não mando o motorista novo'. Nenhuma dessas frases está escrita em lugar algum.

A empresa tentou colocar um agente para propor a programação. O agente tinha acesso a tudo o que estava em sistema — pedidos, distâncias, disponibilidade, custo. Errava justamente nos casos que a pessoa de 19 anos resolvia em trinta segundos. Não é falha de modelo. É um problema com nome desde 1966.

01O paradoxo de Polanyi #

Michael Polanyi publicou The Tacit Dimension em 1966, condensando numa frase o argumento que atravessa o livro: sabemos mais do que conseguimos dizer. O conhecimento tácito é aquele que se demonstra na execução e não se transmite por descrição — reconhecer um rosto, andar de bicicleta, perceber que um cliente vai reclamar antes de ele reclamar.

Sabemos mais do que somos capazes de dizer.
Michael Polanyi, The Tacit Dimension, 1966

David Autor trouxe a ideia para a economia do trabalho em 'Why Are There Still So Many Jobs?', publicado no Journal of Economic Perspectives em 2015. O argumento dele: tarefas que dependem de conhecimento tácito resistem à automação não por serem complexas, mas por não conseguirmos especificar as regras que seguimos ao executá-las. Autor batizou isso de paradoxo de Polanyi.

Uma ressalva honesta, que o próprio Autor antecipa: o aprendizado de máquina contorna parcialmente o paradoxo, porque aprende de exemplos em vez de regras. Onde há muitos exemplos rotulados, a barreira cai. Onde não há — e na programação de cargas de uma transportadora média não há —, ela continua exatamente onde estava.

02Por que isso decide o resultado do agente #

Um agente decide com base no que percebe. O que ele percebe é o que está registrado. Na transportadora, o sistema registrava o pedido e a entrega; não registrava que o cliente X recusa entrega no fim da tarde, que a rota Y tem um trecho que motorista novo não faz bem, ou que aquele agregado atrasa sempre no primeiro dia útil do mês.

Essas três informações não são segredo nem complexidade: são conhecimento tácito operacional, guardado em três cabeças. Enquanto estiverem lá, nenhum modelo as descobre — e o agente vai continuar propondo programações que a pessoa experiente rejeita em trinta segundos, o que rapidamente encerra o projeto por descrédito.

A conclusão operacional é direta e pouco animadora para quem esperava atalho: IA rende na proporção do contexto que a empresa consegue tornar explícito. A parte cara do projeto não é o modelo; é a conversa com quem sabe.

03O que dá para explicitar, e como #

Nonaka descreveu, no artigo de 1991 na Harvard Business Review, o movimento de converter conhecimento tácito em explícito — e a condição para isso: proximidade, observação e diálogo, não formulário. Traduzido para a transportadora, funcionou assim.

  1. Observar a decisão acontecendo. Alguém sentou ao lado da programadora por quatro turnos e anotou cada exceção com o motivo dito em voz alta. Trinta e uma exceções em quatro dias.
  2. Perguntar pelo caso, não pela regra. 'Por que esse não pode?' rende resposta; 'quais são seus critérios?' não rende nada.
  3. Transformar exceção em campo. Vinte e duas das trinta e uma exceções viraram atributos registráveis: janela de entrega por cliente, restrição de rota por experiência, histórico de pontualidade por agregado.
  4. Deixar as nove restantes com a pessoa. São as que dependem de leitura de situação. O escopo do agente foi desenhado para parar nelas.
  5. Registrar na origem. Os novos atributos passaram a ser preenchidos no momento da decisão, não em um cadastro paralelo que envelhece em dois meses.

Quer ver como isso fica dentro de uma operação de verdade? Conheça a plataforma.

O quarto item é o mais importante e o mais ignorado. A tentativa de explicitar tudo produz documentação falsa: a pessoa escreve o que acha que deveria fazer, não o que faz. Aceitar que uma parte permanece tácita é o que torna o resto confiável — é o mesmo cuidado descrito em o que só o Paulo sabe.

Vale lembrar o limite prático disso. Explicitar conhecimento é trabalho de gente ocupada, e conhecimento explicitado envelhece: a regra de crédito escrita em março deixa de valer quando a política comercial muda em julho. Por isso o registro só se sustenta quando tem dono, data de revisão e um lugar único onde vive — de preferência o mesmo lugar onde o processo roda, e não um arquivo que ninguém reabre. Quando o registro fica fora da operação, ele vira documentação morta em poucos meses, e a empresa volta a depender da memória de uma pessoa. O que sobrevive é o que é usado todo dia, corrigido no atrito e mantido por quem executa, não por quem documenta.

04A conta do contexto #

Premissas declaradas, na escala da transportadora — refaça com os seus números:

31

exceções observadas em quatro turnos de programação

22

viraram atributo registrado no próprio processo

9

permaneceram tácitas — e definiram a fronteira do agente

4 dias

de observação: o investimento inteiro em contexto explícito

Quatro dias de observação alteraram mais o desempenho do agente do que qualquer troca de modelo teria alterado. É um resultado sem glamour, e é o resultado típico. Vale registrar também a proveniência desse contexto: quem informou, quando, e com que validade — a prática de documentar a origem dos dados que alimentam um sistema, defendida por Timnit Gebru e colegas em 'Datasheets for Datasets' (Communications of the ACM, 2021), vale igual para o contexto operacional de uma transportadora.

05O que fazer nesta semana #

Na Relevanti, o contexto que a operação torna explícito fica no mesmo lugar em que o agente trabalha, em vez de num documento à parte — veja a plataforma, o recorte por área em soluções ou traga a sua decisão mais dependente de uma pessoa só para uma conversa.

Polanyi não escreveu contra a automação: escreveu sobre o que é o conhecimento humano. Sessenta anos depois, a frase dele virou a régua mais prática que existe para projetos de IA — o agente aprende o que você conseguiu dizer, e nada além disso.

Fontes e leituras

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Contexto explícito é o insumo do agente

O que a empresa consegue registrar sobre como o trabalho é feito vira, literalmente, a matéria-prima do agente.

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