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Quando a meta vira alvo, a métrica morre
O tempo de atendimento caiu 40% em dois meses. O time bateu a meta, recebeu o bônus e a reclamação de clientes dobrou no trimestre seguinte.
Operadora de planos odontológicos, 260 pessoas, central de atendimento com 40 posições. A diretoria decide atacar o tempo médio de atendimento: meta de reduzir 30% em um trimestre, com bônus atrelado. Em dois meses, o tempo médio cai 40%. A meta é comemorada em reunião geral.
No trimestre seguinte, as reclamações formais dobram e o volume de rechamada — cliente que liga de novo pelo mesmo assunto em até sete dias — sobe 60%. O time não trapaceou: fez exatamente o que foi pedido. Encerrar a ligação mais cedo é a forma mais direta de reduzir o tempo médio, e o indicador não distinguia problema resolvido de ligação encerrada.
01A ideia: a medida deixa de medir #
Charles Goodhart, então economista do Banco da Inglaterra, formulou em 1975 uma observação sobre política monetária: qualquer regularidade estatística observada tende a colapsar quando se exerce pressão sobre ela para fins de controle. A formulação curta que ficou conhecida — 'quando uma medida se torna um alvo, ela deixa de ser uma boa medida' — é atribuída à antropóloga Marilyn Strathern, que a apresentou em 1997 ao discutir avaliação de universidades britânicas.
A distinção importa para não citar errado: Goodhart escreveu sobre agregados monetários; a versão gerencial da frase, hoje repetida em qualquer reunião de indicadores, é a paráfrase de Strathern. Ambas descrevem o mesmo mecanismo — o comportamento se ajusta ao que está sendo medido, e o indicador perde a relação com aquilo que ele representava.
Quando uma medida se torna um alvo, ela deixa de ser uma boa medida.
Jerry Muller, em The Tyranny of Metrics (2018), documenta o padrão em saúde, educação, polícia e forças armadas. Ele nomeia o que chama de fixação métrica: a crença de que substituir julgamento por número produz objetividade. O resultado recorrente é a manipulação de curto prazo — selecionar casos fáceis, reclassificar registros, transferir o problema para outra área — e o desestímulo do que não é medido.
02As quatro formas de gaming que você vai encontrar #
Gaming raramente é desonestidade. Na maior parte dos casos, é resposta racional a um sistema mal desenhado, feita por gente que quer manter o emprego:
- Seleção. Priorizar os casos que fecham rápido e empurrar os difíceis para o fim da fila, onde eles envelhecem sem aparecer no indicador.
- Reclassificação. Registrar a ocorrência com outra categoria, para que ela não caia na conta que está sendo cobrada.
- Transferência. Encerrar o próprio ticket abrindo um chamado em outra área; o indicador da área melhora, o do cliente piora.
- Sacrifício do que não é medido. Reduzir tempo cortando a confirmação, o registro e a explicação — exatamente o que evita a rechamada.
Um agravante específico de empresa média: com equipe pequena, o indicador é do time, não do indivíduo, e a pressão do bônus coletivo tende a suprimir quem sinaliza o problema. Reportar que a meta está sendo alcançada de forma ruim significa tirar dinheiro do colega. É por isso que desenho de meta é, também, questão de cultura — o tema de o líder que só cobra status não lidera.
03A conta do número bonito #
Premissas declaradas, na escala da central de 40 posições. Refaça com os seus números:
-40%
no tempo médio de atendimento em dois meses
+60%
em rechamadas em até sete dias no trimestre seguinte
R$ 310 mil
ao ano no custo das ligações repetidas
R$ 84 mil
pagos em bônus por um resultado que aumentou o custo
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A terceira linha: 40 posições, 5.800 ligações por mês, rechamada passando de 8% para 12,8% dos casos, o que dá cerca de 280 ligações repetidas a mais por mês; a um custo aproximado de R$ 92 por atendimento completo, algo em torno de R$ 310 mil ao ano. A conta ignora o efeito sobre cancelamento, que a empresa não conseguiu isolar — e que provavelmente é maior que o resto.
04Como desenhar medição que resiste #
Andrew Grove, em High Output Management (1983), propôs a defesa mais barata contra esse efeito: indicadores em par. Todo indicador de volume ou velocidade vem acompanhado de um indicador de qualidade que se degrada quando o primeiro é forçado. Tempo médio anda junto de rechamada; volume de peças produzidas anda junto de índice de refugo; pedidos fechados andam junto de inadimplência a 90 dias.
A regra prática que decorre daí é simples: nenhum indicador vai para bônus sozinho. Vale também limitar o número de metas remuneradas, distinguir indicador de acompanhamento de indicador de contrato, e revisar periodicamente se a medida ainda descreve o que se queria observar. É a mesma disciplina de distinguir sinal de ruído que aparece em variação não é erro, e o mesmo cuidado que separa objetivo de indicador em de MBO a OKR — onde a recomendação de não amarrar OKR diretamente a remuneração vem exatamente deste problema.
05O que gestão com dado responde #
Muller não conclui que se deve parar de medir — e nem seria possível numa empresa que precisa decidir. A conclusão dele é sobre proporção: métrica é insumo de julgamento, não substituto dele, e o custo de medir (tempo, distorção, comportamento induzido) precisa entrar na conta antes de mais um painel ser criado.
O que torna isso praticável é ter o dado bruto perto da decisão. Quando cada atendimento, ocorrência e reabertura fica registrado no fluxo do trabalho, o par de qualidade não exige projeto novo — ele já está no mesmo lugar. E o gestor consegue olhar o caso individual por trás do número antes de concluir alguma coisa a partir da média.
Na Relevanti, os módulos de operações, processos e inteligência mantêm o indicador e o caso lado a lado — veja a plataforma, o recorte por área em soluções ou traga a sua lista de metas para uma conversa.
Nenhum indicador sobrevive intacto ao peso de um bônus. O trabalho do gestor não é achar a métrica perfeita: é desenhar o par que impede a métrica de mentir.
Fontes e leituras
- Charles A. E. Goodhart, Problems of Monetary Management: The U.K. Experience (1975), reimpresso em Monetary Theory and Practice (Macmillan, 1984)
- Jerry Z. Muller, The Tyranny of Metrics (Princeton University Press, 2018)
- Marilyn Strathern, 'Improving ratings': audit in the British University system, European Review, 1997
- Andrew S. Grove, High Output Management (Random House, 1983)
Indicador em par, no lugar do número solto
Medir volume junto de qualidade é o jeito mais barato de impedir que a meta destrua o que ela deveria proteger.