Gestora conduzindo uma conversa com o time em uma sala de reunião envidraçada

Foto: Unsplash

O gestor que só tem um estilo trava metade da operação

Não existe estilo certo. Existe estilo adequado à situação — e repertório para trocar quando a situação muda.

Diogo Lupinari9 min de leitura

Operadora logística, 340 pessoas. O diretor de operações é reconhecido como o melhor gestor da casa: decide rápido, entra no detalhe, resolve crise melhor que ninguém. Em um pico de demanda, isso salva o mês. Fora do pico, os quatro coordenadores que reportam a ele não tomam nenhuma decisão sem confirmar antes — e reclamam disso na pesquisa interna, com o cuidado de quem não quer se identificar.

Ele não faz nada de errado. Faz uma coisa só, muito bem, o tempo inteiro. É esse o problema.

01A ideia: seis estilos, e a pesquisa por trás #

Daniel Goleman publicou Leadership That Gets Results na Harvard Business Review em 2000. O texto se apoia em um estudo conduzido pela consultoria Hay/McBer com uma amostra ampla de executivos, extraída de uma base maior de gestores mapeados pela empresa. É importante ser preciso sobre o alcance disso: trata-se de dados de consultoria correlacionando comportamento de gestor com dimensões de clima organizacional — indica associação, não relação causal demonstrada, e a metodologia não passou pelo mesmo escrutínio de um estudo acadêmico revisado por pares. O modelo é útil como repertório; não é lei.

O clima medido no estudo vem de uma tradição anterior — Litwin e Stringer já trabalhavam com dimensões de clima organizacional em 1968 —, e a ideia de adequar o estilo ao contexto tem parentesco direto com o modelo situacional de Hersey e Blanchard, de 1969. Goleman organizou isso em seis estilos com nomes que grudam.

  • Coercitivo — exige cumprimento imediato. Serve em crise real e em virada urgente. Usado como padrão, apaga iniciativa.
  • Visionário — mobiliza em torno de um objetivo, deixando o caminho aberto. Serve quando a direção precisa mudar e ninguém sabe para onde.
  • Afiliativo — cuida do vínculo e da harmonia. Serve para recompor um time desgastado ou após um período duro.
  • Democrático — constrói consenso ouvindo. Serve quando o gestor não detém a informação e o time detém.
  • Marcador de ritmo — define padrão alto e o exemplifica. Serve com equipe muito competente e motivada; em time júnior, sufoca.
  • Coaching — desenvolve para o médio prazo. Serve com quem quer crescer e tem margem para errar aprendendo.
Gestores com resultados melhores não usam um estilo: alternam entre vários conforme a situação, com naturalidade.
Paráfrase do argumento de Daniel Goleman, Leadership That Gets Results, Harvard Business Review, 2000

02Por que continua valendo #

Porque a promoção na empresa média brasileira costuma premiar exatamente um estilo. Quem resolve crise vira gestor; quem entrega mais que todo mundo vira gestor. Nos dois casos, a pessoa chega ao cargo com um repertório que funcionou muito bem numa situação específica e recebe uma função que exige cinco outras.

E o repertório não se amplia por vontade. Ele se amplia quando o gestor consegue enxergar a situação com clareza suficiente para saber que aquele caso pede outra coisa. Um coordenador que não tem visibilidade do andamento do trabalho vai perguntar — e perguntar sempre soa como cobrança, mesmo quando não é. O estilo percebido pelo time, nesse caso, não é escolha do gestor: é consequência da falta de informação.

Há um limite honesto no modelo que convém dizer. Estilo não conserta estrutura. Se a operação tem meta contraditória, fila sem critério e prazo que ninguém consegue cumprir, nenhum estilo de liderança resolve — e insistir em desenvolvimento de liderança nesse cenário transfere para o gestor um problema que é de desenho, como argumentamos em o custo de coordenar.

03A conta do repertório de um estilo só #

Na escala da operadora de 340 pessoas, com 22 gestores. Premissas explícitas:

Quer ver como isso fica dentro de uma operação de verdade? Conheça a plataforma.

22

gestores; 4 decisões por dia escalam para o nível acima sem precisar

25 min

por decisão escalada, somando espera do subordinado e tempo do gestor

7,3 mil h

por ano em decisão empurrada para cima na estrutura

R$ 730 mil

a R$ 100 a hora média entre os dois níveis envolvidos

A conta: 4 decisões × 25 minutos dão 100 minutos por gestor por dia; × 220 dias dão 367 horas anuais por gestor; × 22 gestores, cerca de 8 mil horas, das quais estimamos 90% evitáveis com critério declarado e autonomia definida. O número exato importa menos que a direção: a maior parte do tempo do nível gerencial vai para decisões que o nível abaixo poderia tomar se soubesse o critério.

04Onde isso trava na prática #

  1. Promove-se pelo estilo que serve à crise. Depois se cobra do promovido um repertório que ninguém desenvolveu com ele.
  2. Modo urgência permanente. Quando tudo é prioridade, o único estilo disponível é o coercitivo — e ele deixa de funcionar justamente quando há crise de verdade.
  3. Marcar ritmo com time júnior. O gestor faz melhor e mais rápido, resolve sozinho, e o time nunca aprende. Parece eficiência no trimestre.
  4. Democrático usado para não decidir. Ouvir todo mundo em decisão que já tem dono transforma consulta em adiamento.
  5. Afiliativo sem retorno concreto. Clima bom e nenhuma conversa difícil produz um time que descobre o problema tarde demais.
  6. Falta de visibilidade força um estilo. Sem andamento visível, todo acompanhamento vira interrogatório, independentemente da intenção.

05O que gestão com dado responde #

A escolha de estilo depende de ler a situação corretamente: este time domina o assunto ou está aprendendo, este prazo é crise real ou urgência fabricada, esta decisão é minha ou de quem executa. Quando o estado do trabalho está visível, essa leitura leva segundos e é baseada em fato. Quando não está, o gestor decide pelo que ouviu por último — e o que ele ouve por último costuma ser o mais barulhento.

É a mesma base de evidência de o que faz um bom gerente, em dados, e o complemento direto de o líder que só cobra status. Sobre o que a autonomia exige de informação, veja contexto em vez de controle.

Na Relevanti, andamento, prioridade e responsabilidade ficam no mesmo lugar do trabalho — os módulos estão na plataforma, o recorte por área em soluções, e uma conversa ajuda a ver o que hoje só existe na cabeça dos seus gestores.

Repertório de liderança não se compra em treinamento de dois dias. Começa por conseguir ver a situação antes de reagir a ela.

Fontes e leituras

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Estilo se escolhe melhor com informação

Quando prioridade, andamento e resultado estão visíveis, o gestor decide quando dirigir e quando soltar sem depender de impressão.

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