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O gestor que só tem um estilo trava metade da operação
Não existe estilo certo. Existe estilo adequado à situação — e repertório para trocar quando a situação muda.
Operadora logística, 340 pessoas. O diretor de operações é reconhecido como o melhor gestor da casa: decide rápido, entra no detalhe, resolve crise melhor que ninguém. Em um pico de demanda, isso salva o mês. Fora do pico, os quatro coordenadores que reportam a ele não tomam nenhuma decisão sem confirmar antes — e reclamam disso na pesquisa interna, com o cuidado de quem não quer se identificar.
Ele não faz nada de errado. Faz uma coisa só, muito bem, o tempo inteiro. É esse o problema.
01A ideia: seis estilos, e a pesquisa por trás #
Daniel Goleman publicou Leadership That Gets Results na Harvard Business Review em 2000. O texto se apoia em um estudo conduzido pela consultoria Hay/McBer com uma amostra ampla de executivos, extraída de uma base maior de gestores mapeados pela empresa. É importante ser preciso sobre o alcance disso: trata-se de dados de consultoria correlacionando comportamento de gestor com dimensões de clima organizacional — indica associação, não relação causal demonstrada, e a metodologia não passou pelo mesmo escrutínio de um estudo acadêmico revisado por pares. O modelo é útil como repertório; não é lei.
O clima medido no estudo vem de uma tradição anterior — Litwin e Stringer já trabalhavam com dimensões de clima organizacional em 1968 —, e a ideia de adequar o estilo ao contexto tem parentesco direto com o modelo situacional de Hersey e Blanchard, de 1969. Goleman organizou isso em seis estilos com nomes que grudam.
- Coercitivo — exige cumprimento imediato. Serve em crise real e em virada urgente. Usado como padrão, apaga iniciativa.
- Visionário — mobiliza em torno de um objetivo, deixando o caminho aberto. Serve quando a direção precisa mudar e ninguém sabe para onde.
- Afiliativo — cuida do vínculo e da harmonia. Serve para recompor um time desgastado ou após um período duro.
- Democrático — constrói consenso ouvindo. Serve quando o gestor não detém a informação e o time detém.
- Marcador de ritmo — define padrão alto e o exemplifica. Serve com equipe muito competente e motivada; em time júnior, sufoca.
- Coaching — desenvolve para o médio prazo. Serve com quem quer crescer e tem margem para errar aprendendo.
Gestores com resultados melhores não usam um estilo: alternam entre vários conforme a situação, com naturalidade.
02Por que continua valendo #
Porque a promoção na empresa média brasileira costuma premiar exatamente um estilo. Quem resolve crise vira gestor; quem entrega mais que todo mundo vira gestor. Nos dois casos, a pessoa chega ao cargo com um repertório que funcionou muito bem numa situação específica e recebe uma função que exige cinco outras.
E o repertório não se amplia por vontade. Ele se amplia quando o gestor consegue enxergar a situação com clareza suficiente para saber que aquele caso pede outra coisa. Um coordenador que não tem visibilidade do andamento do trabalho vai perguntar — e perguntar sempre soa como cobrança, mesmo quando não é. O estilo percebido pelo time, nesse caso, não é escolha do gestor: é consequência da falta de informação.
Há um limite honesto no modelo que convém dizer. Estilo não conserta estrutura. Se a operação tem meta contraditória, fila sem critério e prazo que ninguém consegue cumprir, nenhum estilo de liderança resolve — e insistir em desenvolvimento de liderança nesse cenário transfere para o gestor um problema que é de desenho, como argumentamos em o custo de coordenar.
03A conta do repertório de um estilo só #
Na escala da operadora de 340 pessoas, com 22 gestores. Premissas explícitas:
Quer ver como isso fica dentro de uma operação de verdade? Conheça a plataforma.
22
gestores; 4 decisões por dia escalam para o nível acima sem precisar
25 min
por decisão escalada, somando espera do subordinado e tempo do gestor
7,3 mil h
por ano em decisão empurrada para cima na estrutura
R$ 730 mil
a R$ 100 a hora média entre os dois níveis envolvidos
A conta: 4 decisões × 25 minutos dão 100 minutos por gestor por dia; × 220 dias dão 367 horas anuais por gestor; × 22 gestores, cerca de 8 mil horas, das quais estimamos 90% evitáveis com critério declarado e autonomia definida. O número exato importa menos que a direção: a maior parte do tempo do nível gerencial vai para decisões que o nível abaixo poderia tomar se soubesse o critério.
04Onde isso trava na prática #
- Promove-se pelo estilo que serve à crise. Depois se cobra do promovido um repertório que ninguém desenvolveu com ele.
- Modo urgência permanente. Quando tudo é prioridade, o único estilo disponível é o coercitivo — e ele deixa de funcionar justamente quando há crise de verdade.
- Marcar ritmo com time júnior. O gestor faz melhor e mais rápido, resolve sozinho, e o time nunca aprende. Parece eficiência no trimestre.
- Democrático usado para não decidir. Ouvir todo mundo em decisão que já tem dono transforma consulta em adiamento.
- Afiliativo sem retorno concreto. Clima bom e nenhuma conversa difícil produz um time que descobre o problema tarde demais.
- Falta de visibilidade força um estilo. Sem andamento visível, todo acompanhamento vira interrogatório, independentemente da intenção.
05O que gestão com dado responde #
A escolha de estilo depende de ler a situação corretamente: este time domina o assunto ou está aprendendo, este prazo é crise real ou urgência fabricada, esta decisão é minha ou de quem executa. Quando o estado do trabalho está visível, essa leitura leva segundos e é baseada em fato. Quando não está, o gestor decide pelo que ouviu por último — e o que ele ouve por último costuma ser o mais barulhento.
É a mesma base de evidência de o que faz um bom gerente, em dados, e o complemento direto de o líder que só cobra status. Sobre o que a autonomia exige de informação, veja contexto em vez de controle.
Na Relevanti, andamento, prioridade e responsabilidade ficam no mesmo lugar do trabalho — os módulos estão na plataforma, o recorte por área em soluções, e uma conversa ajuda a ver o que hoje só existe na cabeça dos seus gestores.
Repertório de liderança não se compra em treinamento de dois dias. Começa por conseguir ver a situação antes de reagir a ela.
Fontes e leituras
- Daniel Goleman, Leadership That Gets Results — Harvard Business Review, 2000
- Daniel Goleman, Richard Boyatzis e Annie McKee, Primal Leadership (Harvard Business School Press, 2002)
- Paul Hersey e Kenneth Blanchard, Management of Organizational Behavior (Prentice Hall, 1969)
- George Litwin e Robert Stringer, Motivation and Organizational Climate (Harvard University, 1968)
Estilo se escolhe melhor com informação
Quando prioridade, andamento e resultado estão visíveis, o gestor decide quando dirigir e quando soltar sem depender de impressão.