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O dilema de quem está indo bem
Todo argumento contra mudar o jeito de operar é bom: o cliente atual não pediu, a margem é menor e o time está ocupado com o que funciona.
Rede de laboratórios de análises clínicas, 600 pessoas, 28 unidades. A operação vai bem: crescimento de 9% no ano, margem estável, equipe experiente. Há dois anos alguém propõe trocar o jeito de coordenar coleta, logística e resultado — hoje feito com um sistema legado, uma planilha central e telefone. A proposta é adiada em toda reunião de orçamento, com argumentos corretos.
Os argumentos: o cliente atual não reclama, o time conhece o processo de cor, o retorno é difícil de projetar e há iniciativas com retorno mais claro na fila. Cada um desses pontos é verdadeiro. Somados, produzem uma decisão que parece prudente e é, ao longo de três anos, a decisão mais cara que a empresa toma.
01A ideia: a boa gestão é parte do problema #
Clayton Christensen publicou The Innovator's Dilemma em 1997. O achado que dá nome ao livro é contraintuitivo: empresas líderes não são superadas por incompetência, e sim por fazerem aquilo que a boa gestão manda — ouvir os melhores clientes, investir onde a margem é maior e alocar recursos segundo o retorno projetado.
Christensen distingue inovação sustentadora, que melhora o produto para os clientes atuais, de inovação disruptiva, que começa pior nos atributos que o cliente principal valoriza, atende inicialmente um segmento menos exigente ou não consumidor, e melhora até tornar-se suficiente para o mercado principal. A empresa estabelecida vê a segunda como irrelevante, e ela é — até deixar de ser.
A lógica de alocação de recursos que torna uma empresa bem-sucedida no seu mercado atual é a mesma que a impede de investir a tempo naquilo que a ameaça.
O mecanismo é de processo interno, não de visão. O comitê de investimento compara uma proposta de retorno incerto e margem baixa com propostas de retorno claro e margem alta. Ele escolhe corretamente, todas as vezes. A soma de escolhas corretas produz o resultado errado.
02As críticas que a teoria recebeu #
Registrar as críticas é parte de usar a ideia com honestidade. Em 2014, a historiadora Jill Lepore publicou na The New Yorker uma contestação dura: reexaminando os casos do livro, argumentou que várias das empresas descritas como derrotadas continuaram existindo ou fracassaram por motivos diversos, e que a teoria havia sido aplicada retroativamente, escolhendo os exemplos que a confirmavam.
Em 2015, Andrew King e Baljir Baatartogtokh publicaram na MIT Sloan Management Review um teste mais sistemático: consultaram especialistas sobre 77 casos citados como disrupção e concluíram que apenas uma pequena parte deles satisfazia todos os elementos da teoria. Christensen, Michael Raynor e Rory McDonald responderam no mesmo ano, na Harvard Business Review, argumentando que o termo passou a ser usado para qualquer mudança de mercado e que a teoria tem escopo definido, com condições que a maioria dos exemplos populares não cumpre.
O saldo prático para quem dirige uma empresa média: a disrupção como profecia de mercado é fraca e frequentemente mal aplicada; o mecanismo de alocação de recursos que Christensen descreveu é sólido e observável dentro de qualquer empresa que esteja indo bem. Use o segundo, desconfie do primeiro.
03A conta de adiar por prudência #
Premissas declaradas, na escala das 28 unidades — refaça com os seus números:
3 anos
de adiamento, sempre com bom argumento
R$ 1,9 mi
acumulados em retrabalho e coordenação manual no período
11 dias
por unidade, por ano, só conciliando planilha com sistema
0
vezes em que o custo de não mudar entrou na comparação
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A segunda linha vem de somar três parcelas medidas depois, a contragosto: horas de conciliação manual (28 unidades × 11 dias × 8 horas × R$ 95, cerca de R$ 234 mil ao ano), reprocesso de coleta por erro de informação e o custo de dois contratos corporativos perdidos por prazo de resultado. Nada disso aparecia na planilha de decisão, porque a planilha comparava o investimento proposto com zero — e o custo de continuar como está nunca foi calculado.
04Como isso aparece na decisão de trocar o jeito de operar #
- O cliente atual não pede. Ele não conhece alternativa e reclama do sintoma, não da causa. Ouvir só ele mantém a empresa no mesmo lugar.
- O retorno é incerto. Mudança de forma de operar tem ganho difuso, e ganho difuso perde para ganho concreto em qualquer comitê.
- Quem mais entende do processo atual é quem mais perde com a troca. A resistência é competente, não corporativa.
- A comparação é contra zero. Sem medir o custo de continuar, todo investimento parece caro por definição.
- A capacidade está ocupada. O time bom está nas frentes que rendem hoje, e sobra para a mudança quem tem menos contexto.
A recomendação de Christensen para o item mais difícil — proteger a iniciativa da lógica de recursos do negócio principal — se traduz, numa empresa de 600 pessoas, em algo modesto: dar à mudança um dono com tempo protegido, uma unidade-piloto e um critério de sucesso próprio, em vez de submetê-la ao mesmo funil de aprovação das frentes de curto prazo. Sem esse desenho, ela morre no meio, como descreve por que a mudança de processo morre no meio.
05O que gestão com dado responde #
A defesa do jeito atual costuma vencer por assimetria de informação: o custo do novo é orçado com precisão, e o custo do velho é invisível porque está diluído em horas de gente que já está na folha. Enquanto essa assimetria existir, a decisão prudente será sempre adiar.
Registrar o trabalho onde ele acontece corrige justamente isso. Quantas horas por mês vão para conciliação, quantas ocorrências vêm de informação desencontrada, quanto tempo um pedido espera entre áreas: com esses números, a comparação passa a ter dois lados. E o piloto de 90 dias deixa de depender de percepção para ser avaliado — é a mesma lógica de medir o que ainda dá tempo de mudar de o que o balanced scorecard ainda ensina.
Na Relevanti, os módulos de processos, operações e inteligência tornam esse custo visível desde o primeiro mês — veja a plataforma, o recorte por área em soluções ou traga a decisão que está adiada para uma conversa.
Ir bem é a melhor razão para não mudar, e é exatamente por isso que a decisão fica difícil. O antídoto não é coragem: é colocar o custo de continuar na mesma planilha do custo de mudar.
Fontes e leituras
- Clayton M. Christensen, The Innovator's Dilemma (Harvard Business School Press, 1997)
- Clayton M. Christensen, Michael E. Raynor e Rory McDonald, What Is Disruptive Innovation? — Harvard Business Review, 2015
- Jill Lepore, The Disruption Machine — The New Yorker, 2014
- Andrew A. King e Baljir Baatartogtokh, How Useful Is the Theory of Disruptive Innovation? — MIT Sloan Management Review, 2015
Decidir com o custo do jeito atual à vista
A defesa do que existe hoje fica mais honesta quando o custo de operar assim aparece medido, e não como impressão.